Domingo, 21 de Março de 2010

Telavive-Jaffa e as Mil e Uma Noites

 


Telavive - Uma ida ao teatro da “coexistência” no Day of Rage!

 

selam e shalom - paz - no teatro

 

Hoje é o “Day of Rage” assim designado pelo Hamas. É um dia em que os extremistas palestinianos invadem as ruas da cidade de Jerusalém e incendeiam pneus, atiram pedras e gritam até ficarem roucos “allah uekbar”, Deus é grande, e abaixo a ocupação. Mas todos terão oportunidade de ver as batalhas campais nas ruas de Jerusalém nos noticiários da noite e alinhar por um lado ou pelo outro no conforto do sofá preferido depois de um dia de trabalho.

 

Enquanto decorrem estes eventos mediáticos, estou sentada num banco do átrio frente ao “Arab-Hebrew Theater” no Norte de Ajami, em Jaffa, o teatro árabe-hebraico, esperando pelas “Mil e uma noites”, uma peça de teatro representada por actores árabes e judeus israelitas que terá lugar esta manhã e será menos mediática

 

O “Arab-Hebrew Theater” é subsidiado pelo Estado de Israel. Localizado no antigo “saray” (palácio) Otomano, mesmo ao lado do Museu de Jaffa, que apresenta uma versão muito oficial da história através dos seus artefactos expostos.

 

Há que esperar pela chegada dos miúdos de uma escola que serão hoje a audiência do teatro. O espectáculo deveria começar às 10h da manhã, e os actores esperam impacientemente a chegada dos jovens espectadores porque têm outros compromissos teatrais a cumprir para complementar o salário.

 

Às onze horas, lá chegam os autocarros com os adolescentes que descem apressadamente liderados pelos professores. Adolescentes que se comportam como outros adolescentes em todo o mundo; miúdos e miúdas árabes, russos e outros imigrantes, nenhum com tipo de filho de “sabra”, alunos de uma escola industrial, pouco habituados a visitarem eventos culturais.

 

No meio do muito barulho, que se acalma à medida que os professores vociferam “sheket, shvu” (silêncio, sentem-se), as vozes dos oficiais de reserva surtem o efeito desejado, embora não completamente e ainda se ouvem uns “hezbollah, hamas, allahuekbar” desafiadores da autoridade gritados por alguns alunos mais “cool”.

 

Ao meu lado senta-se uma miúda de cabelo escuro e curto, de pequena estatura, que é soldado, sem arma no coldre, e que, juntamente com um colega de caserna, acompanham esta excursão. Intervêm de quando em vez para auxiliar os professores de forma calma. Quase se poderia dizer que numa função de trabalho civil alternativo ao serviço militar, mas com roupa militar. Em Israel não há lugar para os objectores de consciência e nesse sentido não há alternativa legal ao serviço militar.

 

As mil e uma noites”, do Tiatron Aravei-Ivrei be Yafo, é uma peça de teatro falada em hebraico, com algum calão e sotaque árabes, numa tentativa mais ou menos bem conseguida de reflectir esta sociedade multicultural e também de aproximar esta peça do seu público. Danças ao som de música árabe, transportam o espectador às arábias, mas não nos trazem o colorido que se esperaria devido à escolha de cenários e roupas minimalistas – já que o Estado é generoso, mas não demasiado!

 

Os actores são de facto muito bons. Movem-se bem e valorizam as roupas minimalistas com os seus movimentos fluidos e, simultaneamente, precisos, as vozes são projectadas sem estridência; os miúdos estão ali a ver um teatro de muito bom nível para o qual não terão nem o background cultural nem a educação e que, para alguns, será demasiado ousado e mesmo ofensivo dos bons costumes. Uma oportunidade única que algo lhes deixará para o futuro e um contributo para a paz tão desejada nesta região.

 

Sem dúvida, um “kol ha kavod” (é de se tirar o chapéu) a esta iniciativa que pretende fazer sobressair o que há de comum entre os povos palestiniano e judeu, que vivem em tensão constante entre si nesta região, e que contribui definitiva e construtivamente para uma convivência e uma melhor compreensão entre eles através da cultura. 

 

Lá aparecem o Ali Babá e os quarenta ladrões, os vários actores segurando bandeirolas escritas em árabe, que alguns dos miúdos lêem susurrando, o vizir que cumpre as ordens reais, e a Sherezade, sua filha que conta histórias, e o seu Rei e senhor, o homicida das suas esposas, que se redime através das histórias dela. Um final feliz que se poderia ver como uma alegoria sobre o que poderia, e poderá, ser uma convivência frutífera neste microcosmo da cultura.

 

A peça foi um pouco longa para os impacientes adolescentes, que no fim receberam olhares críticos dos actores perturbados no seu desempenho pela intranquilidade dos miúdos.

 

À noite no telejornal, invade-nos a sala uma outra realidade. Em Jaffa, uns miúdos terão apedrejados autocarros, que aliás, habitualmente, transportam os árabes, os judeus e os outros que não circulam de táxi ou em veículos privados. Em Jerusalém, parece haver vários feridos e mesmo um morto – a manifestação da minoria não foi representativa e alinha apenas os seus extremistas. Os incidentes correm paralelos a outros na Cisjordância de maior gravidade.

 

Um árabe (palestiniano) de Jaffa, Ajami, dizia-me que a tia lhe tinha pedido que a acompanhasse ao supermercado porque tinha medo de ir às compras sozinha no “dia da raiva” declarado pelos Hamas e celebrado em Gaza com gritos de “allahuekbar" e de "morte ao sionismo”! Enfim, o comum dos mortais quer viver em paz e usufruir dos direitos dos seus compatriotas e tem medo dos extremistas e dos extremismos.

 

Foto do teatro – por enquanto não há porque me esqueci de pôr o filme na máquina (voltei à fotografia analógica)...mas tenho uma do centro histórico de Nablus que entristece a entente e mostra o desentendimento além-muros!

 


 

 Nablus 2010 copyright Cristina Vogt-da Silva

 

 

salamat, Nablus!

 

Cristina Vogt-da Silva, copyright Março de 2010

 
publicado por Cristina Dangerfield-Vogt - Jornalista às 13:07
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